Sobrevivente de Auschwitz devolverá condecoração alemã após aliança entre conservadores e extrema direita
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Sobrevivente de Auschwitz devolverá condecoração alemã em protesto contra aliança entre conservadores e extrema-direita
– A aliança entre o partido conservador alemão União Democrata Cristã (CDU) e a extrema-direita está gerando ondas de choque na Alemanha, com repercussões que transcendem a política tradicional. Anita Lasker-Wallfisch, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, anunciou que devolverá sua condecoração alemã, a Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha, em protesto contra a nova coalizão. A decisão, comunicada nesta quinta-feira (26), sublinha a profunda preocupação da comunidade judaica e de ativistas dos direitos humanos com o avanço da extrema-direita no cenário político alemão.
A octogenária musicista, que testemunhou horrores inimagináveis durante o Holocausto, justificou sua ação como um ato de repulsa à aproximação entre a CDU, partido que governou a Alemanha por muitos anos, e o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). A AfD, com 20% de intenção de voto nas pesquisas atuais, tem demonstrado posições cada vez mais extremas, preocupando aqueles que temem um retorno ao nacionalismo exacerbado e à negação do Holocausto. A coalizão, mesmo que indireta e sem cargos de governo para o AfD, para Lasker-Wallfisch, representa uma normalização perigosamente crescente da ideologia de extrema-direita, minando os esforços para combater o antissemitismo e o revisionismo histórico.
Lasker-Wallfisch, violonista que sobreviveu ao inferno de Auschwitz e posteriormente se tornou uma renomada musicista, considera a condecoração alemã, recebida em 2019, um símbolo da responsabilidade moral do país pela atrocidade do Holocausto. Entretanto, a formação da coalizão entre conservadores e extremistas suja, aos olhos dela, o significado desta honraria. Para a sobrevivente, permitir o crescimento da influência da extrema-direita é uma forma de traição aos valores de democracia e justiça que a República Federal Alemã se esforça para representar, valores estes que ela própria ajudou a defender.
“Não posso aceitar a conivência com um partido que minimiza a gravidade do Holocausto”, declarou a musicista, expressando seu desapontamento e sua preocupação com o futuro da Alemanha. Sua decisão demonstra a força simbólica da ação individual contra a ascensão da extrema-direita e serve como um alerta eloquente para a sociedade alemã. A devolução da condecoração ressoa além da esfera política, destacando a necessidade de vigilância e combate constante às ideologias de ódio e preconceito. O ato de Lasker-Wallfisch serve como um grito de alarme contra a normalização de ideais que já levaram o mundo a uma das maiores tragédias da humanidade.